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Barato que sai caro - II

Publicada em 22/02/2012.

Por Ana Inês Facchin

Então, quando se trata de alimentar crianças, aqui vão receitas e regrinhas que adotei e até agora têm funcionado.

Regra Número 1 – Eterna vigilância, ou, Quem nunca comeu banana frita não sente falta e nem sabe se gosta- Quer dizer: seu filho vai, sim, um dia comer ou tomar alguma porcaria. Mas não hoje. Assim, se não dá pra evitar, dá pra protelar. Nossa missão como pais e mães é retardar ao máximo que a criança prove pela primeira vez um salgadinho, um refri, um chocolate, um doce. Enquanto ela não souber o gosto, não sentirá falta e pode ser até que nunca sinta. Outras pessoas poderão oferecer, via de regra avós com pena do ‘coitadinho’ que não pode comer ‘algo gostoso’. É um problema cultural que os pais devem se preparar para enfrentar e encontrar cada qual a sua forma de não fazer disso uma guerra porque aí fica pior. É preciso sutilezas aqui, cada um invente as suas, eu inventei as minhas. Minha filha está com seis anos e meio. Até hoje nunca tomou um gole de refrigerante e deixa muita gente espantada quando diz com convicção que não gosta (é a história da banana frita ali em cima). Um dia, já com quase cinco anos, provou água com gás e detestou. Óbvio que isso ia acontecer porque ela não tem no seu organismo a informação de paladar do gaseificado. Mesmo em festinhas de aniversário, pede suco ou água. Portanto, quem vai ter um filho ou pretende ter, não fique com pena de não oferecer pela primeira vez ‘algo gostoso’, como um sorvete, um chocolate ou um gole de referi, muito pelo contrário. O refri é viciante, assim como o sal e o açúcar. Jamais se coloca açúcar no leite se a criança não pedir. E ela não vai pedir se não provar pela primeira vez. Nem no bico, pelamordedeus! O mesmo vale para achocolatados. Depois que ela prova pela primeira vez, a informação vai para cada célula de seu corpo que está em fase de multiplicação em função do crescimento e a criança vai pedir de novo, cada vez mais. Portanto, muito cuidado como o que se oferece a uma criança depois do leite materno justamente por isso. Aí não adianta lá na frente se queixar porque o adolescente não come verduras, só toma refri e come porcaria, pois seu organismo ficou viciado nisso em função da falta de vigilância dos pais lá atrás. É preciso que coloquemos a mão no peito de ‘mea culpa’, porque a falha é nossa, realmente. Um dia ela vai querer uma porcaria e a gente vai acabar dando. Mas aí já estará maiorzinha e mais preparada para entender melhor o porquê dos limites.

2 – Tomates de Marte são mais provocantes , ou, como fazer uma criança gostar de verduras e legumes -  esquecemos que já fomos crianças e que o mundo dos pitocos é bem diferente do nosso, muito mais prático. Explicações sobre o que é saudável ou não são até entendidas e necessárias mas não surtem o efeito imediato que precisamos. Então o negócio é entrar no mundo deles, usar de malandragem (aprendi a ser malandra quando me tornei mãe) e fazê-los desenvolver paladares sem nem perceberem. Vou dizer aqui o que fiz que deu certo. Até os seis meses, apenas amamentei e dei chazinhos, sem açúcar, certamente. Quando precisei complementar a amamentação com leite, não quis adotar o leite em pó. Como já disse na coluna passada, tenho um pé atrás, esse mercado é meio monopolizado e eu também não conheço o dono da Nestle. Optei por leite de verdade e meu pediatra recomendou o de cabra. Confesso que até cheguei a dar duas mamadeiras de Nan porque todo mundo falava tanto mas de cara o intestininho trancou de um jeito que eu me irritei de vez, joguei fora a lata, retomei meu princípio e encontrei as cabras de verdade. Foi beleza. Comprava o leite in natura uma vez por semana, fervia, congelava e ia descongelando na medida do consumo. Depois o Paraíso das Cabrinhas fechou e acabei encontrando leite de vaca (de pasto!..) in natura também, que compro até hoje, seguindo o mesmo processo. Aí, quando o leite já não era suficiente, adotei as sopinhas. Não as compradas prontas; eu fazia (e faço até hoje) uma boa panela de brôdo bem leve, com um pedaço de galinha, cenoura, tomate, cebola, alho, salsão, salvia e o que mais eu tiver em casa como brócolis, couve, ervilha, beterraba, etc. Coloco muito pouco sal e deixo ferver. Quando a carne fica bem molinha, está pronto. Deixo a panela uma noite na geladeira para a gordura subir e retiro-a. Aí, até um ou dois anos, eu batia uma parte da carne e os legumes no liquidificador junto com o brodo, formando um mingauzinho. Hoje nem preciso mais fazer isso. Depois é só colocar em potinhos plásticos em porções (com o brodo já frio, jamais quente porque o plástico interage) e vai direto pro freezer. Na hora, descongelo rapidinho uma porção e assim todo dia tem uma sopinha, seja com massinha integral, arroz integral ou torradinhas de pão integral. Este segredinho fez minha filha desenvolver seu paladar para a cebola, o alho, a cenoura, o brócolis que ela adora e o tomate que adora também. E adora sopa. A alface digo que é boa para fazer crescer cabelo e com isso ela come. Outro detalhe: se sirvo algo novo, invento um nome novo. Quando ofereci pela primeira vez palmito, disse que era cenoura branca, já que cenoura eu sabia que ela gostava. Funcionou. É a malandragem de que falei. E agora tenho que cuidar o que escrevo porque ela já sabe ler... Continuo na próxima com uma receita de bolo saudável que  faz o maior sucesso. Até!

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