Em 2011, o Brasil superou o número de 40 mil mortes no trânsito, e chegamos ao terceiro e desonroso lugar entre os países que mais matam no trânsito no planeta. Só estamos atrás da Índia e da China. As estatísticas apontam que os anos 2000 foram a Década da Morte no trânsito Brasil. Mesmo após a aprovação da Lei Seca, em 2008, as mortes continuam aumentando. É preciso repensar nosso sistema de segurança viária, que revela um dos maiores atrasos do Brasil, para evitar mais mortes e um avanço vergonhoso nas estatísticas que façam o país ganhar mais posições no ranking planetário.
Mas as estatísticas são apenas números frios, e não comportam o verdadeiro drama do trânsito tupiniquim. Afinal, por trás dos números fatais, estão histórias dramáticas. O caso do atropelamento que causou a morte da advogada Eliana Boniatti, em pleno sábado à noite na rua Herny Hugo Dreher, é uma delas. Para além da morte de alguém querido na sociedade, resta o drama dos familiares, dos amigos, e também do jovem que supostamente dirigia o veículo e de sua família e amigos, claro que em medidas distintas.
São muitas e muitas histórias que tiram parte do brilho da cidade turística e trazem mais uma vez à tona os problemas de sempre: a desatenção e a imprudência dos motoristas; a falta de campanhas educativas permanentes; a fiscalização falha; a má conservação das vias públicas. O aumento absurdo do fluxo de veículos, que faz Bento aparecer no topo das estatísticas que relacionam carros e número de habitantes, também agrava o problema.
Caso nada seja feito para diminuir riscos, o trânsito brasileiro, em breve, se tornará o campeão no número de mortes, superando os homicídios. Infelizmente, o carro transformou-se numa arma altamente letal, na maioria das vezes acionada pelo gatilho da imprudência e da associação fatal entre bebida, drogas e volante.
O desprezo pelo espaço público; pelo respeito às leis; pela convivência cidadã fazem cada vez mais parte do ethos do barsileiro, que transforma veículos em instrumento de poder e ostentação. O certo nisso tudo é que não podemos continuar contando e lamentando os mortos no trânsito. O que podemos esperar quando multiplicamos, numa velocidade espantosa, o número de carros nas ruas sem uma formação adequada dos condutores? O que podemos esperar se não apostamos em campanhas permanentes de educação no trânsito? E como justificar, diante da catástrofe, o fato de ainda não termos regulamentado a educação de trânsito nas escolas, prevista há anos no Código de Trânsito Brasileiro? E a inspeção veicular, também prevista no CTB?
Mas o pior de tudo é a impunidade, que alimenta a imprudência e a irresponsabilidade. Se queremos leis sérias, que cumpram realmente seu objetivo, temos que baixar o limite de tolerância de álcool no sangue, estabelecer penas mais duras para quem assume, deliberadamente, o risco de provocar um acidente e até a morte quando bebe e dirige. Não dá para ser conivente com a imprudência, com a irresponsabilidade. Não podemos ser cúmplices da impunidade, e nem continuar chorando nossos mortos no trânsito sem fazer nada.
Editorial, 15 de fevereiro de 2012.