O principal foco das cobranças do ambientalista neste ano deve recair sobre o gerenciamento das recicladoras que, segundo ele, carecem de fiscalização e assessoramento técnico.
Jornal Semanário – Hoje, qual é o grande desafio de Bento Gonçalves no meio ambiente?
Gilnei Rigotto – São os resíduos, acho que é o mais complexo. Tanto os orgânicos quanto os inorgânicos, todos eles têm um quê de problemático, em cada setor. Na construção civil tem uma problemática, nós ainda estamos gastando muito para enterrar dinheiro, nós estamos atrasados no quesito compostagem orgânica, que inclusive há anos eu venho dizendo para vários secretários que eles têm que fazer. A construção civil, por exemplo, tem um regramento por lei federal, e tem agora uma lei municipal que ainda não foi mandada para a Câmara de Vereadores. A lei diz que o construtor tem que separar os resíduos na fonte e chamar aquelas telecaliças. Mas os telecaliças estão com um problema enorme, porque eles chegam lá e tem cimento, cascalho, areia, lata de tinta, papelão, papel, tudo misturado. A lei não está sendo cumprida.
JS – E qual sua avaliação sobre a reciclagem no município?
Rigotto – Nos outros resíduos, que são os recicláveis comuns, nós temos um problema de gerenciamento das reciclagens. Problema no que tange à distribuição de renda entre os associados, problema de gerenciamento dos próprios resíduos, eles deveriam estar mais organizados e ter um suporte técnico para isso e eles não têm. E tem também o lance do cara que faz a contabilidade, que é só um cara que faz isso para eles, e é imposto praticamente isso pra eles. Isso eu vou levar para a promotoria. Ele vai lá e diz que faz de graça, pega as assinaturas e faz tudo. É uma coisa que tem que investigar, cada reciclagem deveria escolher o seu contabilista. Foi um indicado pela prefeitura, mas eles, eu acho, vão tirar o corpo fora, “não temos nada que ver”. Tem a ver sim.
JS – Então, nesse aspecto, Bento está aquém do que poderia em termos de reciclagem?
Rigotto – Sim, porque como tem dentro das reciclagens sempre meio que um, entre aspas, benefício de algum em detrimento a outros, os outros vão lá e fazem o que dá para fazer e vão embora. Não tem uma divisão correta e aí não tem empenho. Tem que ter uma comissão que acompanhe toda a parte burocrática deles. E eu vou ver se consigo fazer, dentro do conselho, uma comissão para monitorar a gestão disso aí. Teria que encontrar alguém da área de resíduos que trabalhasse diretamente com eles nessa assessoria.
JS – É isso que mais faz falta às recicladoras?
Rigotto – Uma coisa está ligada a outra. Quando uma não funciona, a outra também não funciona. Se não tem gerenciamento correto, tu não tens a grana. Sem gerenciamento da divisão da grana, não há vontade para trabalhar e para crescer. Ali é como um ecossistema que tem que entrar em harmonia. Mas nunca houve harmonia nesse sentido porque sempre tem rolo. Ou do contador, ou em benefício de um, não tem ninguém que chega lá e diz “vem cá”. Se não tiver essa nossa comissão, eu estava afim até de dar uma ideia de a prefeitura gerenciar isso. Mas como eles vão gerenciar aluguel, luz, água e rancho dos caras? A prefeitura tem que estar mais em cima, tanto no assessoramento técnico quanto na cobrança de metas. Mas esses que deveriam fazer isso, fazem ao contrário, pegam esse contador aí. E quando você faz algo que não é de acordo, como você vai cobrar o que é de acordo? E outra, via de regra, quem está se beneficiando é o presidente, e o presidente é quem manda no resto da boiada. Enfim, vamos tentar fazer essa bendita comissão, tentar regrar isso aí.
JS – O Conselho vai ter força para intervir em casos como esse?
Rigotto – Não adianta o conselho trabalhar e a prefeitura não ouvir. Acho que, agora, com as eleições, eles vão ouvir mais. Eu, como presidente, vou tentar dar um choque de gestão no conselho. Dizer “estamos aqui para quê, estamos aqui para vaquinha de presépio?”. Esse conselho tem que ir para frente. E ele só não fez mais até aqui porque foi desarticulado por questões políticas.
JS – Inclusive com essa decisão de aumentar o número de membros, que você criticou?
Rigotto – Nesse caso, eu quero fazer até um mea culpa, se funcionar, dizer que estava enganado. Eu não tenho nenhum problema de chegar lá e dizer que me enganei, e que bom que com os 48 foi melhor. Mas tem que funcionar. O meu medo é que, como tem 24 governamentais, se é uma coisa de interesse deles, ligam para todo mundo, fazem todo mundo ir. Se é uma coisa que não é interesse deles, quero ver se vai ter corpo mole. Mas isso é uma coisa que eu não posso falar ainda. Eu estou cauteloso.
JS – Há algo mais que tenha contribuído para essa desarticulação?
Rigotto – O não respeito do prefeito e do Legislativo de, cada vez que vai um projeto lá, olhar os pareceres do Conselho. Eles passam batido. Eu vou trabalhar para que isso seja respeitado. Se vai dar certo ou não, não sei, sou insistente, vou encher o saco. Eles não têm sido democráticos. Basta ver os protocolos que eu mandei, que não veio nenhuma resposta até hoje. Como o protocolo contra as 40 mil mudas, aqueles cento e poucos, duzentos mil reais de plantas, que não veio projeto nenhum.
JS – Você critica também a retirada de algumas plantas exóticas do Centro e o plantio de outras...
Rigotto – Agora estão plantando Acer palmatum na frente da Caixa e são exóticas. E daqui 30, 40 anos, vão poder cortar porque são exóticas. E nós que estamos no Conselho Municipal de Meio Ambiente não fomos nem ouvidos pelo secretário. Eles estão criando o mesmo problema, foi uma coisa contraditória. O argumento vai ser o que daqui a 30 anos? É exótica e dá coceira?
JS – De uma forma geral, como você tem o corte de árvores na cidade?
Rigotto – Tem uma tendência de reformas de coisas que deveriam passar por outro tipo de crivo filosófico e ambiental. Os executores estão esquecendo o que é tradição e caindo numa armadilha. Tem que ser tudo novo e eles querem trocar as praças. Deixa as árvores, tira elas devagar. Se tem 50 anos, deixa mais 20. Eles querem reformar tudo. O problema desses engenheiros modernos, desses arquitetos de meia tigela, é que para eles uma árvore e um tijolo são a mesma coisa. Eu sou contra a visão mecânica de trocar tudo, de que tudo vai no mesmo roldão, limpa tudo e faz de novo, que é esse modelo aí. Temos um desenvolvimento tecnocrático, burro, que não é sensível. Tem que tirar uma radiografia de bairro por bairro, da arborização existente para ver onde é necessário plantar essas 40 mil mudas. Eles botaram a carroça na frente dos bois, compraram as mudas para depois fazer projeto. Eu disse, há um ano ou dois: “Não precisa plantar uma árvore em Bento, por enquanto. Deixa as que estão, não corta nenhuma, faz um planejamento sério para saber o que tem”. Daí sim, pode botar na mesa e dizer: “Para 2013, vamos começar a plantar”. Quarenta mil mudas e não tem nem funcionário para plantar árvore! Mas eles não ouvem a gente, é “liga depois”, enrolam, “semana que vem”.
JS – Como você avalia a questão do saneamento e dos recursos hídricos em Bento?
Rigotto – Hoje a única coisa que nos resta é acompanhar as obras das estações de tratamento e cobrar o cronograma fechado nos editais e o que rege o contrato de concessão com a Corsan. Tem que todo mundo focar nisso. Mas também temos que ter fiscalização. Temos que fazer um mapa dos recursos hídricos, juntamente com o cronograma imposto à Corsan. A prioridade, hoje, todo mundo sabe, é em torno da bacia do Barracão. Porque até que seja feito isso, essas estações de tratamento, o pessoal pode invadir.
JS – A pressão por crescer acabou fazendo com que a fiscalização ambiental não desse conta?
Rigotto – Acho que a fiscalização em nível ambiental só está melhorando por causa da pressão de algumas entidades como a nossa. Ela ainda não tem estrutura. E digo isso porque agora, por exemplo, eles vão conseguir uma caminhonete para os fiscais em troca de ajustamento de conduta. E o que começa mal, termina mal ou não funciona. Não dá nem para dizer que termina mal, porque vamos ter sempre uma cidade em crescimento e sempre uma demanda grande de ordem fiscalizatória. Mas tudo tem uma solução, que precisa de gente com visão, que não seja radical, mas que também não se esconda no papo de não ser radical e fique fazendo vista grossa para tudo porque precisa de uma benesse executiva, o que não é nosso caso. Que a gente dê diretrizes com consistência, dentro da lei e indique onde estão os nós, sem medo de ser crítico. Temos que ter gente que bote a boca no trombone. As pessoas do conselho são obrigadas a exercer essa função e isso eu vou cobrar. De cada um, porque cada um que tem o nome lá tem que honrar o compromisso.
JS – A comunidade tem, na sua visão, noção dos problemas ambientais que Bento enfrenta?
Rigotto – Quem tem a proporção do problema são os políticos, mas eles guardam a sete chaves um monte de coisas, como as áreas verdes e os recursos hídricos, porque são peças-chave da comunidade que precisam de investimentos maciços. E, se não se sabe onde está o riacho, não se sabe onde está o problema. Então, é por isso que as audiências públicas de Bento são, de propósito, um fiasco. Eles não querem que apareça. O Executivo não é como nós, ONG, que podemos escancarar as coisas. O Executivo quer fazer a cidade funcionar a qualquer custo. Não é que essa administração tenha toda a culpa, todas as administrações seguiram um círculo vicioso de temer colocar o osso no lugar porque dói. Mas dói para todo mundo! O grande vai ter que pagar os seus impostos, vai ter que fazer estação de tratamento, mas vamos ter que inverter os valores. Parece que o pequeno tem que fazer tudo e o grande é “ai, não vamos cobrar porque ele paga um monte de imposto”, ou é amigo do rei... Essas coisinhas têm que acabar. E a cidade iria ser muito melhor se isso acabasse.
JS – E os animais de concreto que serão colocados nas praças?
Rigotto – Estão falando nessa história de surpresa, então tomara que seja uma surpresa boa. Eu não quero falar ainda, porque eu não vi os bichos. Prefiro esperar para dar minha opinião. Mas, mais uma vez, eles não colocaram isso para o Conselho. Agora, eu, com R$ 80 mil, comprava um monte de coletores de lixo e colocava nas escolas, que eles ainda usam caixas de papelão. Era o meu projeto para esse ano. Mas eles têm feito como sempre fizeram, esconder as coisas. Não quero ser maldoso, mas tem tantas praças aí caindo aos pedaços.
JS – Como será conciliar os dois trabalhos, na Aaeco e no Conselho?
Rigotto – O que eu posso dizer com certeza é que eu tenho conhecimento da maioria dos problemas, onde eles começaram, onde eles trancaram. Isso pela experiência daqui. Eu vivo tanto o momento, que não fico tentando prever. Como é um fato novo, não fico articulando, porque quem faz isso é político, e eu sou um ecologista. Eu vou tentar ser o mesmo, com a mesma intensidade, com a mesma dedicação. Mas vou tentar fazer as pessoas entenderem que quem tem que ganhar o jogo não é o Neymar, é o Messi. O Neymar é só ele, e só uma pessoa não ganha nada, por mais heroica que seja. Vou tentar usar essa analogia. Todo mundo tem que fazer esse papel. E aí o bicho vai pegar, porque se precisar fazer alguém passar vergonha eu faço. E que me façam também, porque eu tenho que ter o contraponto. Toda unanimidade é burra. E eu não estou aqui pela unanimidade, estou aqui pelas provocações, senão eu não vou evoluir.