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Voar com os pés no chão

Publicada em 04/02/2012.

A contestação sobre a construção de um shopping center na entrada do Parque de Eventos de Bento Gonçalves é a crítica mais veemente ao projeto que estabelece uma verdadeira transformação na fotografia e na utilização do parque público cedido à Fundaparque, mas não é a única, a julgar pelas manifestações ocorridas durante a audiência pública que debateu as diretrizes para o Plano Máster apresentado pela M. Stortti Business Consulting Group na noite da terça-feira,  31 de janeiro.

Mesmo recebido com entusiasmo por apresentar traços de modernidade e projetar a utilização do parque para as futuras gerações – inclusive ampliando seu uso para o lazer da população, o planejamento realizado pela consultoria traz à tona questões que precisarão de muito diálogo para uma definição que, se não agrade a gregos e troianos, ao menos estabeleça um consenso possível entre os interesses de toda a sociedade, muitas vezes, é claro, amplamente contraditórios.

Além da construção do shopping – que, de acordo com o projeto, ocupará uma área nobre do parque –, também sofrem severas restrições a construção de um hotel e a transferência do centro administrativo municipal para o local. Para ser realizado, o projeto deverá exigir investimentos superiores a R$ 200 milhões – só o shopping consumirá cerca de R$ 120 milhões – e dependerá da participação da iniciativa privada. A intenção é executar a obra em duas etapas e, segundo a consultoria, já existem interessados. Mas até mesmo a ideia do cronograma original foi questionada.

Mesmo que o trabalho da M. Stortti apresente um projeto fechado e acabado, há espaço para sugestões e mudanças, garantem os proponentes. A partir da audiência, a consultoria e a prefeitura deverão compor uma espécie de comissão para avaliar as contradições e sugestões apresentadas. Será preciso ficar atento e garantir a participação da sociedade organizada nas decisões. Afinal de contas, estamos tratando com uma área que, apesar de ter seu uso cedido à fundação, é pública e, exatamente por isso, precisa contemplar as necessidades da população, e não apenas do grupo gestor.

A saída é ampliar o debate sobre o modelo de parque necessário para atender todas as demandas da sociedade bento-gonçalvense, passando pelo lazer da população e pela ampliação das importantes feiras realizadas no local. É preciso, sim, preparar o parque para o crescimento da cidade, projetar as mudanças na mobilidade urbana do entorno e vislumbrar o futuro com olhos visionários. Mas não podemos esquecer de um passado em que a área foi o maior local de lazer da população, e de um presente que exige posturas realistas. Em outras palavras, será preciso voar, mas também manter os pés no chão.

Editorial, 04 de fevereiro de 2012.

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