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“A classe C é o mercado”

O setor moveleiro está ansioso por uma resposta do governo federal sobre a inclusão das indústrias de móveis na redução do IPI em seus produtos - Foto: Rogério Costa Arantes/Jornal Semanário
O setor moveleiro está ansioso por uma resposta do governo federal sobre a inclusão das indústrias de móveis na redução do IPI em seus produtos - Foto: Rogério Costa Arantes/Jornal Semanário
Publicada em 18/01/2012.

Cátia Scarton começa a escrever mais um capítulo na história do setor moveleiro de Bento Gonçalves, quando tomar posse hoje à noite como a nova presidente do Sindicato das Indústrias do Mobiliário de Bento Gonçalves (Sindmóveis), cargo que ocupará até o final de 2013. Mesmo que, para ela, o fato represente a continuidade de uma trajetória sindical iniciada há mais de uma década, a cerimônia marca, pela primeira vez, a ascensão de uma mulher à presidência da mais importante entidade dos moveleiros bento-gonçalvenses. Formada em publicidade e especialista em marketing e gestão financeira, a empresária de 39 anos acredita que o grande desafios de sua gestão será garantir uma maior aproximação com líderes do setor e moveleiro e do governo, confia na sua determinação e objetiva e garante que ser a primeira mulher na presidência do sindicato é apenas um detalhe.

Jornal Semanário – A senhora já possui uma larga experiência sindical. Sua ascensão à presidência pode ser considerada um caminho natural?
Cátia Scarton – Tive duas fases no Sindmóveis. Primeiro, comecei minha atuação na diretoria da Movelsul, em 1999, depois fiquei um tempo fora e voltei a ser convidada em 2007 para participar, em 2008 e 2009, da diretoria da entidade, quando fui vice-diretora de relações com o mercado, quando a diretora era a Sheila Bertolini, e depois assumi a diretoria. Isso funciona dessa forma no sindicato. Agora, com surpresa, recebi o convite para a presidência. É natural pelo tempo de vivência que tenho na entidade. O convite surgiu em uma reunião com a diretoria e os conselheiros, que também participam das decisões estratégicas. A questão é que quando a nova diretoria assume logo acontece uma feira. Pensamos em ampliar o mandato para evitar uma descontinuidade, mas não foi possível. Queríamos uma solução de continuidade, então, quando foi decidido que o mandato atual não seria estendido, apontaram meu nome. Nesse caso, não teremos o problema, porque estou envolvida na Movelsul como diretora de comunicação. A gestão inicia agora, mas as atividades iniciam mesmo junto com a feira, em março.

JS – Podemos dizer que seu mandato será uma continuidade das políticas atuais?
Cátia – Dá para dizer sim, porque a nova gestão irá focar na continuidade das ações que vem sendo trabalhadas devido as planos de médio e longo prazos já traçados pelas diretorias anteriores.  Algumas diretorias seguem as mesmas e isso ajuda a facilitar o trabalho, mas é importante  o frescor dos novos entrantes:o vice-presidente Henrique Tecchio, o  diretor do Salão Design, Cristiano Gallina e a vice-diretora de comunicação, Vanessa Machado.

JS – Quais os principais objetivos e desafios de sua gestão?
Cátia – Os desafios são muitos e os objetivos vamos detalhar ao longo do tempo. Temos um planejamento estratégico, mas devemos afinar as coisas assim que assumirmos. Temos vários desafios pela frente, e a Movelsul é o primeiro deles. Para a edição deste ano, por exemplo, resolvemos segmentar a feira por setores, buscando atrair mais clientes e aumentar a comercialização de produtos. Esta será também a primeira edição em que a Movelsul estará assumindo o foco na nova classe média brasileira.

JS – A atuação política será uma das marcas de sua gestão?
Cátia – Exatamente. Essa é uma das questões que ainda vamos alinhavar, construindo um plano de ação específico para isso. Conseguimos uma boa abertura com o poder publico municipal na ultima gestão e queremos continuar com essa proximidade. Assim como nos aproximar de outras entidades do setor para trabalharmos causas em comum em beneficio do setor..

JS – Quais serão os principais gargalos do setor em 2012?
Cátia – A questão da redução fiscal está sempre no topo desta lista, com a necessidade cada vez mais urgente de uma efetiva reforma tributária. Mas temos outras questões, como o apoio às exportações, que caíram muito, e tivemos uma nova queda em relação a 2010. Embora o mercado nacional esteja absorvendo a produção, precisamos ampliar nossa participação no mercado externo. Daqui a pouco, muda a situação cambial ou a situação interna e as empresas não estarão preparadas para isso. Acho que as empresas foram se retraindo. Como ficou mais difícil exportar e o mercado interno aqueceu muito, isso ocorreu como uma acomodação ao mercado, uma tendência de mercado, afinal, tu vais vender onde é mais fácil. Precisamos mais incentivo para exportar, o próprio Sindmóveis tem um projeto para isso, o Orchestra Brasil, voltado aos fornecedores da industria moveleira, e as feiras são importantes para receber os importadores. A Casa Brasil, em 2013, deve iniciar um projeto comprador, por exemplo. O início do Reintegra também é bem-vindo: acho que todas as ações ajudam o setor a crescer e voltar a olhar para o mercado externo, fazendo o setor crescer como um todo.

JS – Com relação ao mercado interno, a aposta seguirá na ampliação do consumo da classe média?
Cátia – A classe C não é um segmento de mercado, ela é o mercado. Tem muita gente circulando e isso faz toda a diferença para o setor moveleiro. Apostamos nesse nicho e vamos continuar apostando, tanto que contratamos consultores para isso. Não podemos esquecer que a classe média é o mercado consumidor. O setor moveleiro está ansioso por uma resposta do governo federal sobre a inclusão das indústrias de móveis na redução do IPI em seus produtos. Acreditamos que seria um impulso muito interessante para o nosso setor, principalmente no primeiro semestre, onde as expectativas não são das mais otimistas.

JS – Há otimismo com relação ao crescimento do setor?
Cátia – Eu sou otimista. O setor acompanha a análise dos economistas que apontam para crescimento lento no primeiro semestre e melhora no segundo, e projeta crescimento de 10% bruto em 2012 em relação a 2011.  O boom imobiliário iniciou em 2008 e agora começa o momento de mobiliar esses apartamentos todos. 2012 será um bom ano. Já em 2011 vimos que o setor cresceu mais que o varejo como um todo. O melhor é que é um crescimento continuado. Estamos fazendo de tudo para entregar ao nosso associado subsídios suficientes que lhe permitam um crescimento sustentável ao longo do ano. 2012 também será um ano para pensarmos novidades para a Casa Brasil 2013, pois este é um evento que serve de referência para as grandes feiras. As expectativas são as melhores possíveis para o crescimento do setor. Tudo conspira para que o setor cresça e cresça com qualidade.

JS – Este crescimento da demanda poderá resultar em aumento de preços?
Cátia – Acredito que não resultará em aumento de preços. As empresas estão muito bem estruturadas e não faltarão produtos. Terá um reajuste normal, nada além disso.

JS – Outros polos moveleiros no país estão crescendo e diminuindo seus diferenciais competitivos com relação aos móveis fabricados aqui. Qual o diferencial do mobiliário bento-gonçalvense hoje?
Cátia – - Os móveis de Bento apostaram no design como diferencial. Se olharmos outros polos, eles sempre trabalharam grandes volumes e não apostavam em design. Aqui tem a questão do investimento em marcas. Este processo todo começou aqui e agora todos têm lojas exclusivas. E design também começou aqui, onde temos o Salão Design desde 1988, e este é o grande diferencial. Não é porque é classe C que vão aceitar qualquer coisa. A informação está aí e este novo consumidor sabe o que quer. Este também é um desafio. Fazer design com valor alto é mais fácil do que fazer design com um valor médio do produto.

JS – Neste sentido, é importante uma parceria com as construtoras para aproveitar o crescimento da construção civil para as classes menos abastadas?
Cátia – A Movelsul está buscando uma aproximação com as construtoras e fez também um contato com a Caixa Federal, que tem este portifolio. Queremos que as construtoras participem da feira para pelo menos conhecer o projeto. Temos que mostrar que para eles é interessante. Este ano, teremos uma nova edição de um apartamento modelo dentro dos padrões do programa Minha Casa, Minha Vida. As construtoras ainda estão um pouco distantes e precisamos aproximá-las, entendendo o que para elas é interessante, encontrando o elemento de ligação entre o imóvel e o móvel. Vai dar resultado sim.

JS – Mas, até agora, o governo não acenou com a criação de uma linha específica para financiar a ideia...
Cátia –Está em negociação, mas até agora, não teve muita evolução. Hoje, há uma linha para materiais de construção que contempla móveis fixos na parede, mas ainda precisamos revisar isso e avançar. Esta é uma das questões contempladas no nosso plano de ação.

JS – Neste sentido, uma atuação conjunta com a Movergs pode dar resultados?
Cátia – Sindmóveis e Movergs sempre andam juntos. Pretendemos nos aproximar ainda mais e unir forças para poder trabalhar e ter conquistas melhores e mais rápidas.

JS – A senhora vislumbra um plano industrial, tanto no Estado quanto no país, com vocação para auxiliar o setor moveleiro?
Cátia – Por enquanto eu não vejo isso. Acho que tem algumas mobilizações, mas muito tímidas ainda. O sindicato segue trabalhando e acho que, lentamente, as coisas vão se acomodando.

JS – O que pode agregar o fato de uma mulher ocupar a presidência do sindicato? Neste sentido, a experiência de Maristela Longhi na presidência da Movergs pode ajudar?
Cátia – Sinceramente, acho que não muda nada ser uma mulher. Talvez a única diferença seja uma maior fluidez no relacionamento. A experiência da Maristela é importante sim, e sempre digo que ela é uma pioneira e um exemplo forte para o setor. Mas, na verdade, acho que ser mulher é um detalhe.

JS – Se a Senhora pudesse identificar sua atuação sindical em uma palavra, qual seria?
Cátia – Determinada. Sou muito objetiva, essa é uma característica pessoal minha. Comigo não tem lero-lero. Vou dar o máximo de mim para que seja uma gestão marcada pelo sucesso do setor, por crescimento e conquistas junto aos governos. E espero ter uma aproximação maior com a mídia local. O caminho é conversar mais.

Da Redação: Rogério Costa Arantes
rogerio@jornalsemanario.com.br

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